Conceição Cinti*
Sabemos que o menor que pratica fato análogo a
crime, para fins jurídicos, não comete crime, mas apenas ato infracional. Trata
se apenas de uma opção desnecessária na terminologia, porque o menor comete sim,
crime e assim como o adulto é preso e cumpre pena nas mesmas
condições.
Na prática, no entanto, o menor que pratica ato
infracional sofre medidas socioeducativas que, na maioria das vezes,
equiparam-se a verdadeiras penas. Fazendo-se um paralelo aos
condenados pela Justiça queremos alertar para alguns direitos que o reeducando
precisa ter respeitado.
A Constituição Federal garante aos condenados pela
Justiça (pessoas maiores que cometem crimes, com quem comparamos a situação dos
reeducandos) alguns direitos. A começar pelo seguinte:
Art. 5º: XLV- “nenhuma pena passará da
pessoa do condenado, podendo a obrigação de reparar o dano e a decretação do
perdimento de bens ser, nos termos da lei, estendidas aos sucessores e contra
eles executadas, até o limite do valor do patrimônio transferido”, isso na área
civil. Entretanto, na área penal, opreceito constitucional assegura que a pena
não ultrapassará da pessoa do condenado, ou seja, do autor do crime ou infração
penal (no caso dos menores). Porém os operadores do direito e, principalmente os
familiares dos menores em cumprimento de medidas socioeducativas, mormente, as
privativas de liberdade, sabemos que na prática a situação vivenciada pelos
“menores presos” em geral é inconstitucional, senão vejamos:
Com o menor em confronto com a Lei o
tratamento não é diferente.
Quando se aplica uma medida socioeducativa de
internação ao menor e ele poderá ser transferido para Unidades distantes de sua
família, vislumbramos nesse fato uma verdadeira barbárie. Além de impedir a
ressocialização pela impossibilidade de trabalhar os laços familiares, poderá
comprometer letalmente a vida desse menor. Porque não há como comparar a
sagacidade do menor da capital com o menor do interior. Apenas o fato dele
pertencer a outro grupo (do interior), já é suficiente para ser mais “zoado”,
abusado e morto mais facilmente. E quem responde por essas barbáries e possíveis
mortes se o que acontece nos porões desses calabouços impera a lei do silêncio
quando se trata de sumir com qualquer resquício que possa apontar um responsável
por essas atrocidades?
Se para a ressocialização é necessário que a
família participe da restauração do menor, o CNJ deveria proibir qualquer
possibilidade de transferência desse menor, determinando que ele cumpra a medida
socioeducativa na comarca em que reside. Se a Lei Maior garante que a pena não
ultrapasse a pessoa do infrator, não vemos que esta garantia está sendo
assegurada na hipótese, pois os pais e familiares do menor são penalizados,
quando se veem impedidos de defender seus filhos porque não lhe é permitido
acompanhar de perto todo o tratamento a que esses menores são submetidos. Não
têm acesso fácil para visitar esse menor, quando têm notícias de supostas
irregularidades praticadas contra seus filhos, nem têm o direito de falar
através do telefone com seus filhos. Têm limites para levar algum suprimento
alimentar diferenciado sendo que se sabe que em algumas unidades nem a
quantidade nem a qualidade da alimentação servida é nutritiva o suficiente.
Aos pais que moram longe das Unidades deveria ser
franqueado transporte público, assistência alimentar e acolhimento para pernoite
como é o caso dos pais pobres que vêm do interior para visitar seus filhos na
Capital porque os responsáveis por esses menores decidem sem pensar na condição
de pobreza de sua imensa maioria.
Outro direito que deve ser assegurado ao menor é o
direito à educação. De maneira ampla, a Constituição Federal prevê a educação no
artigo 6º, como direitos sociais ao cidadão. No mesmo sentido, o Estatuto da
Criança e do Adolescente – O ECA – reforça a norma constitucional com relação à
obrigação do direito incondicional a Educação as crianças e
adolescentes.
O menor, com muito mais necessidade deveria ter
prioridade ao acesso à educação, independente de estar ele em conflito com a lei
ou não. Digo mais. Com maior urgência, a educação aos menores em conflito com a
lei deveria ser prioridade do Estado. E, como sabemos o menor reeducando nem
sempre tem à sua disposição acesso a escola nem a cursos profissionalizantes que
são imprescindíveis não só para sua autoestima, formação, mas, principalmente
para quebrar o paradigma e melhorar sua condição de vida futura dando-lhe a
oportunidade real de se tornar um profissional qualificado e com isso ter a
chance de adquirir alguma autonomia financeira ainda que básica, mas que por
certo terá um impacto positivo e ainda poderá evitar uma possível
reincidência.
A maioria desses menores cumpre medidas
socioeducativas sem nenhuma formação educacional e profissional quando é do
domínio público que o trabalho e a escola dignificam e têm uma enorme relevância
na restauração do ser humano. A maioria dos nossos jovens em cumprimento de
medidas socioeducativas, hoje, são pobres, semianalfabetos, sem qualificação
profissional, portanto sem nenhuma perspectiva de um futuro.
Esse tempo em que os menores passam “presos” à
disposição do Estado, quase sempre em espaços físicos inadequados, ociosos e
expostos aos mais diversos e perversos tipos de comandos precisam ser evitados
por ser ilegal e desumano e para isso acreditamos que o CNJ possa ser o divisor
de águas, para que esses menores tenham de fato e de direito acesso à
ressocialização reconstruindo suas vidas para que possam retornar à sociedade
com dignidade.
Porque é durante esse período de total
vulnerabilidade desses menores à disposição do Poder Publico, é que lhe são
subtraídos a maior parte da essência do ser humano que há nesses menores. É por
essa razão que às vezes olhamos para uma criança que cronologicamente ou
biologicamente é uma criança, mas já não vemos nela uma criança, tudo que
conseguimos enxergar é apenas um delinquente, alguém repulsivo ao convivo
social, rejeitado, porque para que se possa olhar e enxergar uma criança em
alguém que já foi mutilada na sua dignidade é necessário que tenhamos a
responsabilidade e a sensibilidade de enxergar na sua alma as feridas causadas
pela indiferença de uma sociedade egoísta e posteriormente destroçada por um
Poder Público deliberadamente fraco e inoperante para cumprir sua obrigação de
acolher e tratar essas crianças e adolescentes, mas não é compromissado com a
dignidade humana das pessoas de baixa renda que são a maioria dos jovens presos
desse imenso país pobre.
*Conceição Cinti.
Advogada e educadora. Pós-graduada em Administração de Pessoas. Especialista em
Tratamento de Dependentes de Substâncias Psicoativas, com experiência de mais de
três décadas. Colunista do www.institutoavantebrasil.com.br e outros renomados sites.
Nenhum comentário:
Postar um comentário